Entrevista : Joel Zito

, par Joel Zito Araujo

Quando o documentário “A negação do Brasil” foi apresentado nos cinemas, o público pôde conhecer qual o papel reservado aos negros na telenovela brasileira. Partindo desse ponto, o cineasta, escritor e professor Joel Zito Araújo mostra como a questão do branqueamento se instala no discurso estético da TV brasileira. Além do documentário, premiado e exibido em diversos países, inclusive na 1ª mostra Brésil en Mouvements, da Autres Brésils, “A negação do Brasil” também rendeu um livro.

Joel Zito Araújo mostra o branqueamento estético em “A negação do Brasil”

A fim de ampliar a discussão sobre o racismo, “A negação do Brasil” faz parte da programação da mostra Social em Movimentos, com a participação do diretor num debate após a sessão. Saiba mais sobre o que pensa Joel Zito Araújo.

- Como surgiu a idéia de pesquisar o papel do negro nas telenovelas brasileiras ?

Em primeiro lugar, este enfoque faz parte do meu trabalho autoral desde os anos 80. A escolha de se fazer um documentário e um livro sobre o papel dos negros nas telenovelas surgiu de uma bolsa de estudos para os Estados Unidos, quando conheci o documentário de Marlon Riggs, “Color adjustment” (1989), sobre a representação do negro na televisão norte-americana. Naquele momento, vi que esta melhor forma de discutir a questão racial. No entanto, achei que seria muito genérico tratar do negro na TV e achei melhor me concentrar na telenovela, que é o produto dramatúrgico e audiovisual mais popular e importante da TV brasileira. No entanto, por se tratar de entretenimento, a telenovela é o produto a que a gente assiste de maneira mais acrítica. O documentário não traz só a questão de discutir a forma estereotipada que o ator negro é obrigado a trabalhar na telenovela, ele apresenta também a questão do branqueamento da sociedade, que deixou de ser um discurso político para ser um discurso estético. Deixou de ser uma política de Estado para ser uma questão de imagem. Essa idéia de branqueamento traz em si a negação de uma sociedade multirracial.

- O senhor teve muitas surpresas no momento da pesquisa, ao rever as imagens dos 40 anos de TV no Brasil ?

Tive muitas surpresas. A ideologia do branqueamento fez com que o negro só fosse apresentando como uma pessoa bonita nos anos 90. Antes, era reservado a ele o papel do feio, no máximo, do exótico. Durante este período, carreiras de atores negros incríveis não tiveram o reconhecimento que poderiam ter. Milton Gonçalves, por exemplo, foi um dos diretores de “Irmãos coragem” e “Sinhá moça” (primeira versão). No entanto, ele não aparece como diretor. Lucélia Santos, numa entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo” conta que foi Gonçalves que dirigiu a maior parte de suas cenas em “Sinhá moça”. Isso não parece na história das telenovelas. É chocante perceber que em um terço das telenovelas não tem negro no elenco e, em dois terços das produções, o número de atores negros é menos de 10% do elenco. A exceção fica por conta das novelas sobre a escravidão, pois o negro tem o local dele na trama. Essa é a sub-representação ou exclusão é que provoca a tal invisibilidade do negro na televisão, tão falada pelo movimento negro.

- Atualmente, no ar, a telenovela “Cobras & lagartos” conta com dois atores negros entre os personagens principais. Trata-se de uma exceção ou a novela aponta novos caminhos ?

“Cobras & lagartos” faz parte das exceções, ao mesmo tempo em que mantém a norma porque deram aos negros papéis estereotipados. Lázaro Ramos é o ator brasileiro com maior fama no exterior, filmou com diretores de fora, mas me causa estranhamento que a Globo não tenha para ele um papel que não seja o de um malandro meio bobo, meio ridículo. É chocante vê-lo como o malandro num elenco com jovens brancos. Mesmo a Taís (Araújo) tem um papel negativo. Nesse sentido, a novela mantém a norma. A novidade está no conjunto de atores negros com maior espaço na dramaturgia. Hoje, muita gente conhece “Cobras & lagartos” como a novela do Foguinho. Já houve atores negros com papéis marcantes em telenovelas, como a Zezé Motta e o Milton Gonçalves, mas temos agora um núcleo negro marcante. Mas é perceptível a dificuldade de se encontrar atores negros em papéis de brasileiros comuns. O primeiro e último caso de uma atriz negra protagonista na Globo continua sendo a Taís (Araújo) em “Da cor do pecado”.

- Mas quais seriam os caminhos ?

Durante muito tempo, não achava que existia intencionalidade neste tipo de escalação. Pelo menos a Globo oferece papéis estereotipados para os atores negros. Eu brinco que, se James Bond vier percorrer os papéis da Globo, ele não vai encontrar uma regra escrita sobre ter somente 10% de negros nos elencos. No entanto, hoje começo a ter dúvidas sobre essa visão. Atualmente, o maior agente público contra as cotas é Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, um homem influente que ocupa um cargo específico. E essa intencionalidade me preocupa, termos núcleos duros atentos à questão racial e que não quer mudanças. Não sei o que pode acontecer nos próximos dez anos. O mito da democracia racial é forte e tende a desarticular a demanda de igualdade racial com uma cortina de fumaça. Por outro lado, é este mito é um desejo de realidade.

- Então qual é o papel a ser desempenhado por cidadãos, sociedade civil organizada, ONGs e escolas, por exemplo, em relação á questão racial ?

Temos que colocar a questão racial como pauta do debate na sala de aula, nos movimentos sociais e deixar de ignorar a injustiça no tratamento desigual das raças no Brasil. Acredito que os professores, com a lei que determina o ensino da história da África, abrem um espaço especial para discutir o racismo, identidade racial, herança cultural dos negros no Brasil. Os professores seriam como mediadores de uma cultura de incorporação do diferente, cultura de aceitação do outro. Isso provoca o aumento da auto-estima em metade da população brasileira que não vê sua imagem refletida pela TV. Isso traz elementos para elevar a auto-estima dos negros. Mas é preciso cuidado para não cairmos em paternalismo. O branco deve fazer um exercício de autoconsciência para ver as conseqüências nefastas do sentimento de branquitude, que mostra brancos como superiores aos outros. Temos o confronto com o sentimento de uma raça superior. Não estou criticando o orgulho do branco de ser branco, mas, no nosso inconsciente cultural, o branco aprende que é superior ao negro e ao índio. É preciso cultivar a cultura da diversidade dentro de si mesmo, ver o outro como igual.


Entrevista conduzida por Gustavo Carvalho - outubro 2006


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